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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Vício

Sobre batalhas perdidas.
Batalhas típicas do nosso dia-a-dia.



Vício

Estamos nós em frangalhos,
E a única coisa que consigo fazer
É olhar para o alto,
Contemplar o céu,
Para depois, com paciência,
Recolher meus retalhos

Não consigo mais brigar
Não tenho mais forças para lutar
E se essa luta nunca nos levou
A outro lugar,
Eu desisto
Levanto minhas mãos para o alto,
E como meu último suplício,
Eu desisto

Olho para você,
Ciente do que estou para perder
Mas nem a lembrança do seu mais doce olhar
Pode me interromper
Já peguei minhas malas,
E o táxi está para chegar
Boa sorte, minha angústia,
Hora de lhe deixar

Depois de tanto tempo,
É como se o óbvio se fizesse entender:

Eu não preciso ficar
Nem precisa você

Nem eu,
Nem você




"I feel nothing when you cry. I hear nothing, see no need to reply. I can smile now and turn away, come over here so you can see me walk away... And celebrate the end of night."

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Enfadada

Dedicado a Victor e Netto.

Enfadada

“I am awake and I cannot sleep”. É como se tivesse um peso sobre meu ventre, um peso que me faz permanecer sentado nesse sofá, procurando formas de me livrar dele, forma de me levantar. E acabo apelando às palavras, que nem tem muita razão para nascer agora, mas me parecem ser a única solução para afastar esse peso de mim, ele que me faz não querer minha cama, mesmo depois de um dia fatigado. Enfim, estou acordado e não consigo dormir... Tem algo crescendo dentro de mim.

E é como se já fosse de manhã, e eu tivesse de trabalhar outra vez. Como se não houvesse tempo a perder de olhos fechados, e minha vida pedisse com urgência que acordasse, acordasse dessa letargia que me consome os dias. Acordasse para o fim do mundo, para os poucos segundos, para uma existência que ao tomar posse de si, acaba. Acordasse para a beleza e a feiura das almas. Despertasse para a sobriedade que existe em cada roupa lavada. Percebesse que não é pesado o fardo, quando sabemos que perante a eternidade, não é nada. O fardo da vida não é nada quando se tem uma eternidade que, efêmera, rouba nossas mágoas. E nos faz livres, ainda que em milésimos de medidas de tempo que se evanescem na velocidade que chega a alvorada.

É noite, não consigo dormir. Mas é belo sentir o frio escuro da madrugada.

E esse peso suaviza. Esse peso vira outra coisa, outra questão inacabada. Algo que busco responder escrevendo e escrevendo e escrevendo, achando rasuras do que seria uma solução, mas apenas patinando em torno das minhas palavras. Palavras roubadas. Coisas usurpadas. Um monte de tempo perdido na tentativa de descobrí-las. Um tanto de vida ganha nos momentos de encontrá-las. E um peso que diminui, a cada novo verbete, a cada novo sentido, em cada passo na estrada.

Passo que leva. Passo que afasta.
Passo que reza. Passo que traga.

E eu posso dormir, depois desta reza profanada. Posso sentir que meu ventre cresce, e repele este peso até algo de novo eu sentir nascer em minhas entranhas cansadas. Estou exausto, e agora são meus olhos que pesam pedindo minha cama, pedindo que a alcance antes que adormeça neste sofá de estampa desbotada.

Preciso dormir.
Estou acordado, mas já posso dormir.
Deixei o peso sobre a dor enfadada...
A dor dessa estampa, tão desbotada.