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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

American Life: Iluminação e Identidade


American Life é um disco que causa polêmica até hoje. Enquanto alguns fãs continuam o enchendo de glórias, outros afirmam que ele é chato, incoerente ou apenas um apanhado de demos que Madonna já tinha desde o Music, editando-as numa coisa só. A verdade é que o disco foi vendido pela própria como algo que não abordava de fato seu texto: mesmo tendo elementos de política (escrachados pelo vídeo anti-guerra da faixa-título), diria que American Life trata bem mais de questões de moralidade e ética, ambientadas no contexto de alguém vivenciando um despertar íntimo. Pensando nisso, e tratando cada canção como um passo neste caminho, vou detalhar minha ideia a respeito desse trabalho, um dos que mais gosto de Madonna.

1 — American Life: Hipocrisia

A canção que intitula o disco sequer cita o nome "guerra" em sua letra, mas como sabemos, foi alardeada dessa forma pelo ótimo videoclipe que a acompanha. No entanto, American Life é uma grande crítica à hipocrisia daqueles que vivem o "Sonho Americano”, e nela a cantora denuncia o quanto o desejo de ter fez as pessoas esquecerem da importância de ser. Ela mesmo diz que para ter prestígio, tentou ser uma série de coisas que não necessariamente lhe diziam respeito, para no final listar algumas de suas regalias, enquanto reflete se elas a deixavam satisfeita ou não. Ainda, quando Madonna celebra no refrão este modelo de sociedade, na verdade diz acreditar no que ela deveria ser, e não no que se tornou: um mar de falsidade e intolerância. Isso consequentemente nos leva à segunda canção, em que M questiona o porquê de coisas tão brilhantes lhe machucarem tanto. Estamos em Hollywood.

2 — Hollywood: Desilusão

A fama e seus prós e contras sempre deram pano pra manga na carreira de Madonna. E este tema volta a ser sondado nesta faixa, exatamente por representar a desilusão de encarar algo que parece tão maravilhoso, mas que ao mesmo tempo escraviza, aterroriza e faz as pessoas mostrarem seu lado mais feio, somente para serem fotografadas pelo lado mais bonito. Em Hollywood, a artista se vê perdida pela vontade de alimentar seu ego, que em contrapartida lhe traz consequências ruins, como encontrar pessoas que só lhe dão valor pelo que se tem, e não pelo que se é (como visto na faixa anterior). Por fim, ao dizer para mudar a estação e o canal num tom sufocante, Madonna parece ter despertado de seu sonho confuso, para perceber o quão ingênua havia sido por acreditar naquele cenário mágico.

3 — I’m So Stupid: Despertar

Acordada de todo brilho e drama que a cerca, a artista começa a questionar ainda mais todas as coisas que tinha como belas e, portanto, tomava como referência. Ela finalmente reconhece que tudo o que a motivara era cobiça, desejo tolo de ser como as pessoas bonitas que via por aí. Finalmente, entende que buscava sentido nas respostas do mundo por mera estupidez, como normalmente agimos durante a vida. A artista não encontrou ainda o que precisa, mas pelo menos já sabe do que não mais necessita: buscar acolhida às custas do que outros almejam ou espelham não vai lhe fazer feliz.

4 — Love Profusion: Religação 

Após perceber sua ingenuidade, várias questões enchem a cabeça da cantora, bem como a impressão de que lhe falta uma explicação, uma noção que emende todas as partes de sua vida. Nesse momento a Cabala começa a ter seus ensinamentos expressos no disco, na forma da profusão de amor invadindo os poros de Madonna.
Toda a confusão do que é externo começa a baixar seu tom, em nome de uma busca mais introspectiva, de encontrar um sentido mais substancial à vida que levava. É quando ela canta ter "você" dentro de si (under my skin), que deixa ao ouvinte a pergunta: "quem é você?". Sugiro que Madonna se refira ao propósito divino, as leis que regem o universo, e a dimensão metafísica que nos habita e passa despercebida em nosso dia-a-dia. Finalmente, M termina a canção reverenciando o novo universo em que acaba de adentrar, ao dizer que pode até estar de mau humor, mas mesmo nos dias em que o mundo parece triste, somente essa busca pode lhe fazer bem. E consequentemente tal busca leva ao próximo passo, o reconhecimento de si.

5 — Nobody Knows Me: Autoconhecimento

"Conhece-te a ti mesmo". Ao deixar para trás a noção de que os outros poderiam lhe definir, Madonna encara o vazio que sente ao se desconhecer. Ela então relata ter vivido muitas vidas desde sua infância, porque se viu obrigada a morrer diversas vezes também. Após passar pelo fenecer de mais uma camada de ilusões, é preciso preencher-se de si, aproximar-se da luz (no sentido de consciência), e ao refletir sobre o Divino que a habita, perceber que ninguém a conhece como a conhece tal consciência. Pode chamá-la de Deus, de insconsciente, de como preferir; a questão aqui é que finalmente a artista olha além de sua miopia e refuta fontes externas (revistas, TV) que não acrescentarão nada à sua intenção maior: o entendimento. Mas para entender, não se pode rejeitar suas emoções. A compreensão vem por meio do Amor, e ele que renasce em Love Profusion encontra seu par em Nothing Fails.

6 — Nothing Fails: Amor

O Amor é a primeira e última instância de qualquer escola espiritual. Rejeitá-lo pelos percalços que nosso egoísmo o impõe é o mesmo que rejeitar a si próprio, já que a ânsia por tal sentimento é real e se mostra viva de muitas maneiras em todos nós. Quando se sente o Amor como estatuto maior nada pode falhar, e mesmo que não tenhamos crenças específicas, sentimos o ímpeto de pedir a algo que proteja o que alegra nosso espírito.
Esta canção parece ser clara quando se refere a um casal, mas amar é uma expressão tão elástica que não podemos resumi-la a isso. No fim das contas, há muitas maneiras de se escalar a Árvore da Vida, e todas retornam ao próximo passo de nossa caminhada: a criação.

7 — Intervention: Criação

"Preciso salvar meu bebê, pois ele me faz chorar. Preciso fazê-lo feliz, preciso ensiná-lo a voar". Em Intervention, Madonna canta sobre as virtudes e dificuldades de se criar uma nova existência. Seja um filho, uma ideia, uma outra figura de si, é preciso coragem e persistência para não cair nas armadilhas que a vida sempre impõe. O mais importante, no entanto, é lembrar que mesmo quando a estrada parece solitária, é somente o jogo de Satanás (a mentira, a ilusão), e depois que se esculpe uma nova vida, nunca mais se é o mesmo.
Cantando sobre saber que o Amor cessará toda dúvida e apuro, a artista sugere que a intervenção divina é exatamente essa: o bem que cresce e se espalha vindo tirá-los de cada situação ruim. Portanto, é chegada a hora de questionar a figura de Deus cultivada pelo ocidente: por que invés de nos salvar, tal imagem nos desfigura?

8 — X-static Process: Questão

Nossa relação com o Divino costuma orientar para negarmos traços de nossa personalidade, em nome de um bem maior, a vontade de Deus. Chega-se ao ponto de evitarmos nossa própria existência em nome de algo especial, mais especial que qualquer vivência mortal, de modo tão dissociado que parte o laço entre o ser e o não-ser, isto que cabe à instância divina. No processo, esquecemos que também somos especiais, também somos bonitos e que tudo é inspiração maior, tudo tem razão de existir e direito de permanecer onde está.
É nesse momento que Madonna encara a maior de suas ilusões, maior até do que seu desejo de ser alguém perante o mundo: ela percebe que não é ninguém diante de Deus, porque Deus é ela, Deus sou eu, Deus somos nós na medida que expressamos sua obra, sua criação. Não existe arrogância em ser tão boa quanto Jesus; existe humildade em reconhecer-se como parte de um grande projeto universal, no qual reside o Divino.
Só depois de assim perceber-se, Madonna tem coragem de voltar a seu passado para recriá-lo, num dos traumas que mais lhe afligia: a perda física de sua mãe, e a inevitável perda emocional de seu pai.

9 — Mother And Father: Recriação

Sobreviver a traumas exige em certo nível que se "recrie" as experiências ruins do passado. É preciso olhá-las como fontes de aprendizado, ou ainda que se entenda um pouco suas circunstâncias, uma vez que no momento que a vivenciamos nem sempre somos maduros para encarar o que estava ao redor.
Madonna sempre tratou a morte da mãe como a situação mais trágica de sua vida, e depois de cantar sobre a difícil relação que se estabeleceu entre ela e seu pai (Oh Father), parece que em Mother and Father consegue vê-lo com mais compaixão. Perder sua esposa ainda tão jovem exigiu dele um enrijecimento, o que parece ter apagado muitas de suas emoções; ele ainda tinha vários filhos para criar e não podia se entregar à dor que sentia. Por não compreender a posição de seu pai, Madonna canta sobre ter criado uma aversão, o que a levou em última instância a abdicar do desejo de encontrar alguém que a amasse. É impossível para uma menina de cinco anos saber o que é amor próprio, e se agora ela não tinha mais quem a ensinasse a respeito (amando-a), desistir disso tudo foi a dura escolha que fez. Só anos depois, já adulta e diante de sua própria família, pôde reconhecer os enganos cometidos por ela e seu pai, concluindo que no fim das contas o sofrimento foi mútuo, só não compartilhado. Mother and Father é quase uma resposta ao seguinte verso de Oh Father: "maybe someday when I look back I'll be able to say, you didn't mean to be cruel, somebody hurt you too."
Depois de encarar e ganhar nova perspectiva sobre toda sorte de ilusão e desilusão, é hora de sobreviver à morte. Hora de morrer somente outro dia.

10 — Die Another Day: Ressurreição

Em Die Another Day, Madonna canta sobre destruir seu ego, evitar o clichê e finalmente quebrar o ciclo, provavelmente de tantas mortes em vida citado em Nobody Knows Me. É hora de escolher pela vida, pelo conhecimento, pelo caminho que não termina mesmo quando o corpo tem seus sentidos suspensos e se fecha, para o resto do mundo.
Morrer outro dia trata-se na verdade de sublimar aspectos persistentes de sua vaidade, em nome de uma existência mais depurada. Não à toa, no clipe da música ela é representada em meio a conflitos, interno e externo, até conseguir vencê-los pela morte da matéria, mas não do espírito.
Ela liberta-se em nome do entendimento, da compaixão e do amor. E ao olhar para seu aprendizado, percebe finalmente o que deseja da vida; e não é um caminho fácil.

11 — Easy Ride: Síntese

Em Easy Ride, canção que fecha o álbum, Madonna parece repassar mentalmente tudo aquilo que realmente lhe importa. Ela deseja que seus esforços não sejam vazios, e que possa obter frutos pelo suor e sangue nas pontas de seus dedos. Traz consigo os filhos, um lugar tranquilo, e a dimensão de que precisa de bem menos do que imaginava para ser uma pessoa mais feliz. Finalmente, invoca a figura do círculo para refletir a noção de infinito que almeja para sua existência, partindo em busca de si e voltando finalmente para si, onde continua a haver sua casa.
Vemos que a artista descreve um paraíso sem fanfarras, sem drama e retaliações, livre da ilusão que o êxtase e a depressão carregam. Ela procura por paz, é isso que quer; essa é a síntese de seu caminho.

Nesta dimensão, talvez, a cantora tente expressar um ideal de Sonho Americano mais consistente, o que inclusive dá coerência ao nome do álbum. No geral, porém, American Life carrega mensagens universais, e para senti-las é preciso escutá-lo sob perspectivas que vão além desse texto. Uma interpretação pessoal nunca limita uma mensagem, e a busca que Madonna, ou cada um de nós, empreende pela própria identidade é jamais limitada. You go round and round, just like a circle…