domingo, 27 de janeiro de 2013

O silêncio de Casa

O sol está tão vivo hoje.
E o céu mais azul que de costume.
Isso me lembra daquela semana, aquela semana fatídica.
Lembro bem que, pouco depois de ter lhe perdido, os dias foram lindos. Por fora, lindos.

- É o céu fazendo festa pela chegada dela!
- É, deve ser.

E hoje, mais uma vez, o dia está lindo. E por fora, minha pele brilha como se a vida fosse um córrego de água cristalina. Eu vejo o quanto ainda existe de beleza no mundo, mas por hoje só da minha janela. A casa está mais silenciosa que o habitual.
Porque hoje morreu tanta gente. Hoje morreram tantos pais, e eu sei o que isso significa. Eu vivo com gente morta, mesmo que parcialmente, mesmo que somente em algumas partes. Vivo com a morte dentro de mim também, um pedaço que lentamente se degenera até nada mais existir. É lento, mas está lá. Nada há de virar, mas até nada virar, está lá. E eu cá, na janela lateral, a esperar. E olhar. E esperar.

Eu queria tanto que nossa compaixão fosse o bastante. Queria que o corpo perdido não representasse muito, queria que vocês não fossem impelidos a se afogar em lágrimas. Mas não dá. Não dá para lhes salvar do que há de mais natural... Somos um corpo também, é impossível fugir dele, e por isso existe o luto.

O luto pelas palavras não mais trocadas. O luto pelos abraços partidos. O luto pela certeza negada de que um filho não voltará ao ninho. O luto pela filha que não está mais comigo. Luto pelo fragmento de vida que está por aí. E aqui. Sim, aqui.

E hoje, mais uma vez, o dia está lindo. Aberrante, impreciso, cheio de corpos, cheio de ausências que pesarão sobre meu sorriso.

A beleza consegue ser tão sonsa... A beleza, às vezes, é só um vício.




"Come, baby, let's drown..."

domingo, 20 de janeiro de 2013

"Flor"

Esse texto é tudo o que posso ser. Tudo o que mais quero ser.

Eu ouço você chegar. Tiro meus chinelos velhos e me deito na cama, esperando chamar meu nome pra que possa responder como quem não quer nada, “no quarto, vem aqui”. Eu lhe olho entrando e abro meu sorriso mais gentil... Você já pode me beijar.

- Como foi seu dia?
- Uma porcaria, lembra daquele fulano da secretaria? Fez merda de novo, e ainda perdeu uns arquivos com o contrato da prestadora de serviços! Consegui recuperar depois, mas deu trabalho... E o seu? Chegou mais cedo em casa...
- Tudo tranquilo, como tive de passar no banco consegui sair mais cedo e vim direto pra cá. Vim pensando em você...
- Pensando em mim? Por quê?
- Você, meu marido, espera que tenha outra razão pra lembrar de você?
Começou o romantismo... - diz, já sorrindo.

Capturando minha hesitação com seus olhos imensos e escuros, você se aproxima de mim e beija. Beija como onda alcançando a areia. Beija como um marinheiro, encantado pela beleza de uma sereia. Beija, beija com doçura, mas segurança, a segurança de quem sabe como beijar. Como me beijar, me amar.

E eu sinto seus braços me envolvendo, e meu coração batendo, minhas forças cedendo ao poder que só você tem sobre mim. Quanto mais perto chega, ouço também sua respiração, seu coração veloz e acelerando, como uma força natural, como a promessa de boa terra que li em sua pele, desde a primeira vez que o toquei.

- Você lê com as mãos?
- Não preciso dos olhos quando é você que vejo.

E mais um beijo, agora mais forte, mais sugado, mais roubado que antes e me fazendo desfalecer por uns poucos segundos. Começo a me despir de qualquer empecilho, ao passo que você faz o mesmo, e assim sinto que chega a hora de nos unirmos, como costumamos fazer. Mesmo violado, eu sou uma flor. Mesmo animalesco, você honra meu ardor. E fazemos amor.

Nós fazemos amor.

- Eu te amo.
- Eu te amo mais...
- Vai começar com essa besteira?
- Tá bom, você me ama mais...
- Eu te amo igual. Nós somos iguais.

- Nós somos um só, meu amor.

Somos natureza, natureza sagrada. Flor inviolável, da alma.


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A considerar

Não paro de andar porque, se assim faço, a vontade de voltar é maior. Não paro porque quando parei antes o coração fugiu da minha razão e assim, virei descompasso. Não dá para parar quando seu objetivo é chegar. A figura no entanto muda quando esse desejado alvo começa a transmutar - e com ele vai minha vontade em chegar.

Teimo em sonhar com algo mais duradouro, algo que comece em lentidão mas, por isso mesmo, tenha tempo de crescer. Queimei etapas demais antes, e elas agora fazem falta. Queimei minhas vontades também, mas não importa, sobrevivem até ao fogo do inferno, e por isso resistiram e me assombram sempre que minha guarda é baixa. Como viver eternamente sob minha armada? Isso não mais me serve de nada.

E agora sinto falta de ver amizade virar amor. Sinto falta de ter em mim a inocência de alguém que se conquistou. Eu mais conquistei, eu mais invadi, eu pouco deixei de mim para que viesse você e me levasse daqui. É estranho perceber o quanto quero algo que ninguém pôde me dar... Nem sei se tive a coragem de esperar, esperar pelo tempo certo de encontrar. Mas quando viria? Quando virá?

Por isso andei demais, e fui longe o bastante para não saber como voltar. Por medo de dar tempo ao tempo, de entender o momento, de amadurecer minhas entranhas para ser terra viva, terra de florescer e frutificar. Andei porque tinha medo de voltar...

Mas o que mesmo há de tão tenebroso em voltar?



"With the birds I'll share this lonely view"

sábado, 15 de dezembro de 2012

Epitáfio do Fim do Mundo

Se o mundo acabar, você tem coisas a deixar?

"Epitáfio"

Se o mundo acabar em alguns dias,
Quero estar com você
Poder lhe beijar até o segundo
Que antecede morrer
Segurar sua mão quando a onda vier
E deixar que nos leve,
Mas juntos!

Isso me deixa seguro

Se o mundo acabar em poucos dias,
Quero dizer que isso não nos limitará
Na verdade,
Nada pode limitar
O que nasceu para resistir
A tudo o que machucar.
E resiste,
Como raiz,
Não como flor

Temos nossas flores,
Mas elas não sobreviverão ao fim,
Meu amor

Por isso que o mundo acabe,
Que meus dias renunciem à existência,
Mas que seja esta minha carta de rescisão
Nela estão meus sentimentos,
Prescindindo as palavras,
Os atos,
Prescindindo a razão
Se alguém lê-la,
Que saiba como
Em tudo
Fui um homem apaixonado

E amei

Amei estar a seu lado,
Meu amado


sábado, 8 de dezembro de 2012

MDNA Tour: a minha jornada.

Nota: este texto funciona como a parte II do “MDNA Tour: a jornada de Madonna”, publicado dias atrás. O primeiro descreve o show como um todo, e neste me atento a coisas mais específicas, então recomendo que se gostar de um, leia o outro também ;)



Há um tempo, escrevi um texto sobre como via a MDNA Tour, mas na perspectiva de alguém que não havia experimentado o show de verdade, ao vivo. Nesses últimos dias, porém, tive a felicidade sem tamanho de assistir a dois dos concertos apresentados no Brasil, Rio e SP (dia 04). Antes de explicar o que de novo floresceu em meus pensamentos após acompanhar de perto a jornada de Madonna, gostaria de falar sobre outro aspecto dessa viagem para mim: meus amigos.

Tive a chance de encontrar pessoas com quem interajo pela internet há anos (alguns desde 2006), e só posso dizer que em tudo superaram minhas expectativas. Me senti acolhido e dentro de uma nova casa, moradia essa que já vinha sendo construída há muito tempo. A todos vocês, com suas palavras, personalidades, o bom humor e sorrisos tão sinceros, meu mais doce “obrigado” (dedico tudo isso também a meu namorado).

Retomando o foco do texto, queria lhes perguntar algo: o que É Madonna? Não sei se pensam assim, mas só estando na presença dela, vendo duas horas de show virarem 15 minutos de êxtase e percebendo o quanto tudo, e digo tudo mesmo, em seu show é bem pensado e remete a uma mensagem meio profética, meio poética, é que tive dimensão de como ela é uma artista (ou entertainer, se preferirem) sem tamanho. Cada canção está no lugar apropriado e cria uma narrativa contada de forma simples, mas enriquecida exatamente nos detalhes. São tantas pequenas coisas que você sente a necessidade de assistir mais e mais shows, para captar de diferentes perspectivas toda a riqueza do espetáculo. E mesmo que falar coisas assim lhes dê a impressão de que estamos diante de um show frio, reitero que não, a MDNA Tour está longe de parecer somente calculista: a emoção explode durante toda a performance, fazendo chorar, sorrir, criando um movimento de resposta mútua entre quem está no palco e quem está no público. É embasbacante.

E falando dos blocos, creio que seguem mais ou menos os apontamentos que fiz anteriormente; agora, no entanto, tenho novas coisas para dizer sobre cada um, e farei por partes.

TRANSGRESSÃO: este momento do show deixou muita gente próxima a mim surpresa por ser tão soturno e macabro. É sem dúvida uma das melhores apresentações de Madonna, reforçando um lado quase esquecido em performances recentes da cantora: a teatralidade. Uma das coisas que mais me chamou atenção foi que, durante Papa Don't Preach, M canta amparada por uma cruz imponente (no telão), o que reforça que ali o Pai era um pouco mais celestial que o Sr Silvio Ciccone... E Hung Up, nossa, após acompanhar as imagens de background consegui entender de fato a performance! Nele, vemos takes retratando magia negra e feitiçaria pesada, envolvendo vudus, rituais tribais, linhas da vida sendo traçadas e redesenhadas e até o crânio de um bode sendo manejado por um feiticeiro. Dá para entender que “Hung Up” está levando ao pé da letra a sua tradução “presa”, “ligada”, no sentido da personagem estar sob uma forte amarração, seja pela devoção cega a um culto organizado, ou pela dependência obsessiva por alguém amado. Passar pela slackline é uma prova de fogo para sua liberdade, e ao conseguir o feito, finalmente M pode cantar I Don't Give A.

Esta canção, inclusive, me deixou boquiaberto por dois detalhes de sua performance, no começo e no fim: quando Madonna se direciona ao centro da plataforma para tocar sua guitarra, aqueles monstros antropozoomórficos que a carregaram em Papa... agora a seguem como animais de estimação, o que me remete novamente à ideia de que ali ela era senhora de seus temores. Já sobre o fim, na verdade foi um momento que me recordo de ter acontecido somente em SP: ao que parece, M mostrou o dedo do meio para a cruz! Foi uma blasfêmia? Talvez. Mas o que ela significa? Que toda a opressão e imponência que o cristianismo atual empurra goela abaixo de seus seguidores é algo que ela não aceitaria mais para si. É incrível!



PROFECIA: chamar esta sequência assim remete mais ao intervalo que a abre (Best Friend/Heartbeat), mas deve ter a ver também com a catarse de Open Your Heart/Sagarra jo !, bem como os discursos que a cantora costuma fazer após esta canção. É como se Madonna estivesse “profetizando” sobre suas noções acerca da liberdade, igualdade e unidade. Em SP mesmo, M usou o significado da expressão “Sagarra jo !” para tal; segundo a cantora, isso quer dizer “amassar maçãs”, porém no sentido da apresentação, as maçãs são os preconceitos, a miséria, ignorância e falta de empatia. Inclusive, uma das coisas que podemos perceber na interação entre a cantora e o público através das palavras é que ela é uma ótima entusiasta. Ainda que todos estejam lá para vê­-la, Madge é bastante competente em ater a atenção de sua plateia, especialmente quando cita palavras em português (ela adora aprender palavrões, por sinal rs) ou pede que cantem com ela musiquinhas bobas, como a “sagarra jo, São Paulô!”.

Neste bloco, quem também brilha, e muito, são os cantores e instrumentistas do trio Kalakan. Com vozes limpas, super afinadas e extremamente comoventes, cada uma de suas participações no espetáculo é bem vinda e só acrescenta. Desde a primeira vez que ouvi o audio de Masterpiece ao vivo, era apaixonado pelo instante em que eles se juntam a Madonna para concluir a canção, e acabei chorando quando os ouvi entoando, “And I'm right by your side...” *suspiros*

MASCULINO/FEMININO: além de um lustre imenso servindo de ambientação para Candy Shop – Human Nature, gostaria de falar sobre minhas novas impressões assistindo ao vivo Like a Virgin/Love Spent. A primeira das duas músicas não é mais cantada em tom de lamento – pelo contrário! Deixando toda carga dramática da performance para a segunda, LaV assume um sabor despojado, bem humorado e muito sensual. Todos enlouqueceram com a tatuagem de PERIGUETE no Rio, bem como com a interação direta que o momento intimista propiciou; eu mesmo fiquei babando por Madonna, e rindo muito com o “you're making the biggest mistake of your life”, dito ao fã que recebeu a maçã mordida por ela durante a música. Casando as duas canções, creio agora que representam melhor a repressão sofrida por Madonna em ser quem é (algo que dialoga com sua idade, ultimamente): “goxtosa”, da forma mais provocadora que essa palavra possa soar.

É muito bom perceber também que nessa retomada de si mesma, M decidiu voltar mais uma vez sua atenção ao público LGBT. Ainda que ela nunca tenha deixado de ser um ícone gay, é patente como na MDNA Tour veste a camisa da causa, seja na presença destacada do dançarino oriental andrógino, na brincadeira com padrões de gênero ou, de forma mais política, no vídeo de Nobody Knows Me, mostrando fotos de sete adolescentes gays que se suicidaram por terem sofrido bullying, em ambientes de ensino. Há quem ainda diga se tratar de golpe de marketing, mas normalmente quem acredita nisso vê Madonna como somente uma marketeira; é uma posição que considero bem equivocada, ainda mais depois dos shows assistidos, mas não é o tipo de coisa que quero discutir aqui e agora... Enfim, o último bloco.



REDENÇÃO: divertido, colorido, impressivo visualmente e simplesmente catártico. Não tenho muito o que acrescentar sobre as coisas que já disse antes, mas gostaria de pontuar que, sem sombra de dúvida, Like a Prayer é o momento do show! Há nessa canção uma entrega sem tamanho tanto de Madonna como do público, de modo a criar um ambiente de comunhão intensa entre todos os presentes. Em SP, assisti ao show da arquibancada, e até agora é difícil descrever a sensação de ver um estádio com 58 mil pessoas batendo palmas em conjunto – É como fazer parte da totalidade, e sem dúvida é isso que M quer que sintamos cantando com ela um de seus maiores clássicos. Devo pontuar também que é bem emocionante vê­la dançando com a bandeira brasileira (coisa que ela não faz com a bandeira de todo lugar que passa); isso me faz pensar em como criticamos nosso país e às vezes desejamos não viver aqui, mas de alguma forma somos ligados a ele – Ok, parei com o nacionalismo fajuto.

Um outro ponto da performance diz respeito ao coral formado pelos dançarinos e equipe de Madonna. O perfil do twitter @poserdemadonna disse que ele representava a “União dos Povos”, e a julgar pelo caráter multiétnico de seus integrantes, é uma noção que faz todo sentido e engrandece ainda mais a mensagem da cantora através de sua música.

Com esta postagem, fecho o meu ano “madônnico”, e faço isso com chave de ouro, já que felicidade é pouco perto do que senti em presenciar a completude dessa mulher de 54 anos, pondo um espetáculo de pé como ninguém. E vê­-la ali, sendo ao mesmo tempo tão forte e tão vulnerável, fez­-me lembrar do poeminha escrito e recitado por ela no I'm Going To Tell You a Secret, em que se refere ao palco como uma gaiola:

I have a cage
It's called the stage
When I'm let out
I run about
And sing and dance and sweat and yell
I have so many tales to tell
I like to push things to the edge
And inch my way along the ledge
I feel like God, I feel like shit
The paradox, an even split
It's just a job, I always say
I should be grateful everyday
Sometimes I think I just can't do it
But I persist and I get through it
And I console myself each night
At least my cage is filled with light.

“Ao menos minha gaiola é repleta de luz”.

E ela está certa.
De seu palco, mesmo nos momentos mais escuros, emana luz.

É espiritual.



PS: as fotos dessa postagem são minhas, de Nayara Guimarães e de Rodrigo Oliveira.

sábado, 24 de novembro de 2012

MDNA Tour: a jornada de Madonna.

NOTA: esta review do show é cheia de spoilers, mas cheia mesmo, então não leia se quiser manter a surpresa!



Queria deixar para falar da MDNA Tour aqui no blog após assistir ao show, mas como provavelmente eu terei um relato mais emocional do que descritivo nessas condições, decidi discorrer sobre o que já conheço da apresentação, através do que li, assisti e ouvi. Bastante coisa, por sinal. Acho que estou fazendo isso também para acalmar um pouco a ansiedade, já que agora faltam menos de 10 dias para eu finalmente estar de frente à cantora, que me acompanha há mais de 10 anos. Então, vamos lá.

Esta é a 9ª turnê de Madonna, dá apoio promocional a seu 12ª disco de estúdio, MDNA, mas serve também de comemoração às 3 décadas de carreira da Rainha do Pop. Não à toa, o disco em si soa como uma retrospectiva de muitos dos elementos que Madge explorou em sua vida artística, indo desde a iconografia religiosa até as influências orientais. Acontece que as diferentes temáticas da tour também nos remetem a estes ícones, numa viagem que, de forma grosseira, resume-se no caminho de uma alma da completa escuridão até a iluminação. É dessa forma que vemos uma garota enlouquecida alcançar paz e, enfim, ter a chance de celebração! Antes de me aprofundar nisso, porém, falarei um pouco sobre a tecnologia envolvida em sua produção.

O imenso palco da MDNA Tour é amparado por três grandes telões, nos quais surgem as ilustrações de cada performance. A ambientação é dada também por 36 blocos de LED, projetando-se do chão e formando desde níveis no palco até estruturas mais complexas, como os "três ônibus" de I'm A Sinner e as "cabines de DJ" em Celebration. Tal amparo tecnológico tem sido, nas turnês recentes de Madonna, uma maneira extremamente bem sucedida de substituir o excesso de elementos cenográficos, dando assim uma aparência mais limpa ao espaço. Isso no entanto não quer dizer que eles não existam, já que em momentos mais teatrais da apresentação acabam aparecendo, a exemplo do quarto de motel em Gang Bang. Para mim, aliar tecnologia a seus espetáculos é sempre um lado positivo das performances de Madge. No entanto, meu objetivo maior nesse texto é me debruçar sobre os temas da turnê, e para isso vou começar do começo...



O show se divide em quatro blocos temáticos, e no inicial, chamado de "Transgressão", a cantora explora exatamente o lado mais obscuro das emoções, amparando-se numa diversidade de referências a demônios íntimos que vivem em cada um de nós. O primeiro desses demônios, bem característico da própria Madonna, é a religião como ferramenta de opressão e ódio. O show é aberto por cânticos de caráter litúrgico, entoados pelo trio de música basca Kalakan, enquanto um imenso turíbulo é erguido e movimentado como um pêndulo no palco, pela ação de "monges" vestidos em mantos escarlates. Surgem também quatro dançarinos com máscaras de gárgulas, contorcendo-se em movimentos bizarros, até finalmente ouvirmos a voz de Madonna, orando o "Act of Contrition". É aí que uma estrutura dourada mostra-se entre as duas metades do telão principal, e nela vemos uma noiva toda de preto, ajoelhada e portando consigo uma metralhadora. Ao quebrar o vidro daquele altar com a arma, M mostra-se ao público pela primeira vez e começa Girl Gone Wild, numa coreografia sufocante ao lado daqueles monges, agora despidos e usando somente uma calça justa e salto alto. O cume desta performance é sem dúvida a ponte que leva ao refrão final, na qual os efeitos visuais combinam-se com os passos de dança e mostram uma Madonna caindo dos céus... De longe, um dos melhores momentos!

Passada a primeira música, é começada Revolver, e dessa vez são as dançarinas que surgem com armas pesadas para, junto a Madonna, formarem a quadrilha das Beautiful Killers. Um dos primeiros contrastes que chama atenção nesse momento é a suposta inversão de papéis entre as duas canções: enquanto em GGW, são os dançarinos que usam saltos e se expressam de forma afetada, nessa música quem assume um papel agressivo e voraz são mulheres. Enfim, a temática masculino/feminino volta a se fazer presente na terceira parte, e lá tentarei explicar em que ele se encaixa no espetáculo. Mas, dando continuidade ao bloco, chegamos a seu ápice na terceira música do show, quando Madge pega sua arma, e dentro de um quarto de motel ("paradise motel", por sinal), começa sua saga de assassinatos até conseguir matar seu maior desafeto, um antigo romance; isso é Gang Bang. Com sua coreografia milimétrica, é um dos momentos mais explosivos e intensos do show, e até da carreira de Madonna em si. A garota pirada de GGW sai matando um a um seus agressores, até começar uma pulsante luta corporal com seu último alvo (durante o dubstep da canção) e finalmente conseguir exterminá-lo.

A questão é que ainda durante esta música, a personagem demonstra sinais de insanidade, até surgir o arrependimento e junto a ele, todos os demônios que ainda a perseguem; começa Papa Don't Preach. Mudando de forma contundente o sentido da canção, esta agora soa como um discurso de alguém saturado e que percebe ter feito a escolha errada. E à medida que canta, aproximam-se de Madonna os tais demônios, dotados de máscaras animais e prontos para capturá-la e levá-la ao limbo... Hung Up, numa versão mais sombria e completamente subvertida, entra em cena para representar tal situação. No entanto, esta música ganha uma ressalva especial: ela funciona como um turning point, usando-se da corda bamba (slackline) como mais uma metáfora para se referir ao delicado limite entre o céu e o inferno. Uma Madonna até então acorrentada é levada a atravessar tais cordas, enquanto ressoam os versos "you'll be sorry" e "please, forgive me". Ao terminar o percurso, a iluminação do palco, que começa vermelha, torna-se azulada sobre a própria cantora, representando que ali ela se tornou senhora de tudo o que lhe afligia. Não à toa, ela usa os dançarinos mascarados como uma escada, domando-os e finalmente podendo dizer, de forma categórica, que ela não dá a mínima. I don't give A!



Cantando de forma agressiva que "faz 10 coisas ao mesmo tempo, e se você tem problema com isso, eu não dou a mínima", o bloco é concluído com um rompante de autoafirmação, reiterado pelo já clássico verso de Nicki Minaj: "There's Only One Queen, and that's Madonna, Bitch!". Nesse momento, Madonna é elevada ao ponto mais alto do palco sob a luz de uma cruz imensa, onde se lê MDNA invés de INRI, estendendo sua mão com avidez, como se tentasse alcançar de fato o que está acima. É aí que chegamos num momento emblemático: a estrutura da catedral apresentada durante o começo do bloco volta a aparecer, e num último instante, quebra-se em pedaços que se desmancham de uma única vez. O primeiro grande demônio que vem e vai pelo show é domado: a opressão religiosa.

Passado esse momento vigoroso, somos levados a um intervalo, num mash up das canções Heartbeat/Best Friend. Este abre o segundo bloco da tour, "Profecia". Enquanto alguns dos dançarinos fazem movimentos semelhantes aos dos gárgulas que abrem o bloco anterior, os telões exibem imagens de um cortejo fúnebre, passando por lápides onde se pode ler palavras como "Fé", "Infinito", e a citação "What Man Doth Foolishly Call Death" ("O que fez o homem tolamente chama-se morte"). Mesmo passando uma sensação funesta, ao cantar "it's so sad that it had to end", a mensagem deixada no telão é "Love Is Above All" - como um epitáfio, seria a mensagem que Madonna através de seu trabalho quis deixar; emendamos dessa forma com um hino ao amor próprio: Express Yourself.

Usando figurino de Majorette (para o qual muita gente torceu o nariz), ela surge novamente do meio das telas, onde agora são apresentadas imagens que misturam elementos de pop art, quadrinhos e anúncios antigos dos EUA. A mensagem por trás desses elementos é um acompanhamento literal da letra da música, mas vale salientar o momento em que três casais desenhados (um de lésbicas, outro de gay e o terceiro heterossexual) aparecem se beijando. A performance é selada com o polêmico acréscimo de Born This Way ao final, cantada nota a nota sobre a base de Express Yourself, para depois ser emendada com um abusado "she's not me, she's not me"... Essa é a deixa perfeita para a introdução de Give Me All Your Luvin', canção que fala sobre Madonna ainda ser a maioral. No show, GMAYL ganhou uma versão vigorosa, com direito a tamboristas pelos ares e uma coreografia de líder de torcida de deixar qualquer um de queixo caído. Essas duas músicas são seguidas de um pequeno intervalo, no qual ela troca de roupa novamente e aparece tocando em sua guitarra Turn Up The Radio.



Passada Turn Up The Radio, chegamos a um dos instantes mais inventivos do concerto, com a participação mais que pronunciada do trio Kalakan. Usando uma base de música basca, Open Your Heart é apresentada numa versão acústica e cativante. Os cantores do Kalakan são finalmente apresentados ao público, fazendo vocais base e tocando instrumentos percussivos que ditam todo o charme da nova versão. A performance é selada com uma música do próprio trio, "Sagarra Jo !", criando um momento de êxtase semelhante a La Isla Bonita de 2008, na Sticky and Sweet Tour. Com a apresentação concluída, Madonna aproveita para recuperar o fôlego e conversar com o público sobre qualquer assunto corrente, e foi justo nessas conversas que ela levantou questões polêmicas, como a prisão das Pussy Riot, a lei anti-propaganda gay de São Petersburgo, e as eleições norteamericanas. Mesmo tendo incluído "minicanções" em alguns dos shows (Holiday, Everybody, Give It 2 Me com PSY), normalmente o discurso é seguido por Masterpiece, também amparada pelos vocais do Kalakan.

Após cantar o último "Nothing's Indestructible", Madonna sai do palco e começa o segundo grande intervalo do show, numa versão extremamente provocante para Justify My Love. Primeiro ouvimos temas circenses e vemos palhaços segurando câmeras e correndo atrás da cantora; ela então consegue se trancar num salão luxuoso e lá mostra sua sensualidade ao som da nova versão da canção (produzida aqui por William Orbit). Bem dizer, esse vídeo tem por objetivo tocar no segundo demônio que a perseguiu, especialmente este ano: o ageism, preconceito com pessoas mais velhas. Ao se mostrar completamente sexual com 54 anos de idade, Madonna responde a todos os que a criticam através de sua imagem, não dando muita brecha para quem a acha muito velha para fazer o que faz. Justify My Love também abre caminho para o 3º bloco do show, batizado "Masculino/Feminino", e que se constrói, à semelhança da dualidade Girl Gone Wild/Revolver, no questionamento de quais papéis são femininos e masculinos, especialmente em termos estéticos.

Começamos aqui com Vogue, numa versão parecida com a do Super Bowl, mas apresentada com um novo apelo visual: Jean Paul Gautier foi convidado a reinventar o corselet usado pela cantora na Blond Ambition Tour, tornando-o assim numa armação metálica e dotada dos icônicos seios em cone. Os dançarinos, por sua vez, usam peças "trocadas" ou de caráter andrógino, fazendo alusão ao tema geral da 3ª parte, seguindo no entanto a coreografia apresentada no Half Time Show do início do ano. Passada Vogue, porém, temos um momento de grande surpresa para todos os fãs: Candy Shop. A nova versão da música, ambientada agora numa atmosfera mais jazz e sensual que a original, é perfeita para o cenário cabaré que se forma no palco. Ainda há espaço para uma coreografia bem saliente de Madonna e seu namorado (e dançarino da tour) Brahim Zaibat, quando no meio da música há um rompante da emblemática Erotica ("Put your hands all over my body"...). Após abusar de seu lado mais sexy, chega a hora de falar diretamente a quem a critica por ainda agir assim, o que nos leva a uma performance ainda mais contundente, com direito a strip tease...



Em Human Nature, Madonna canta rodeada de espelhos sobre o escrutínio que até hoje vê em torno de seu nome, até começar a se despir, do meio para o fim da música. Este é um momento importante do concerto, por dois motivos. O primeiro deles é que, de costas nuas, a cantora expunha uma tatuagem que virou marca registrada desta turnê. A mais utilizada era o dizer "No Fear", porém, a depender de onde a tour passasse, M também fazia diferentes homenagens. Foi o ocorrido com Obama, as Pussy Riot, e a garota paquistanesa Malala, vítima de um atentado do talibã por manter um blog no qual falava dos problemas educacionais de sua comunidade. O segundo motivo é que, após o strip tease, Madonna ficava completamente vulnerável e entregava uma reedição também despida e sutil de um de seus maiores hits, Like a Virgin.

Esta música é cantada em versão acústica, tendo como base a belíssima Evgeni's Waltz, composição de seu filme W.E., e assume um tom de lamento, como de um amor perdido, da lembrança de alguém que a fez se sentir como uma virgem novamente, mas que já não está mais a seu lado. Parece-me óbvio ter sido esta uma performance dedicada a seu ex-marido Guy Ritchie, havendo espaço nela para mais uma metáfora que reforça seu tom lamurioso: durante Human Nature, o telão mostra a imagem de um homem observando Madonna constantemente; ao final, esse homem "sai" do vídeo, e acaba aparecendo presencialmente para o clímax de Like a Virgin. É nesse instante que ela tem um espartilho preso à sua cintura, o qual é puxado pelo tal homem até deixá-la praticamente sufocada. Ele então solta as cordas do espartilho, deixando-a para trás, até ela sentar no banco do piano no qual a canção era tocada, para descer com ele à parte interna do palco. A ideia, possivelmente, é de que aquele relacionamento, mesmo tendo sido especial, acabava a sufocando, o que denota que seu fim talvez tenha sido o melhor.

É preciso reforçar que esta última apresentação sofreu no meio da tour uma grande mudança, com a inclusão de Love Spent para finalizá-la. A novidade deu um tom um pouco mais rancoroso ao ensejo, já que agora, invés de Madonna somente lamentar a perda do amado, demonstra ter percebido que ele tinha interesses um pouco diferentes do dela no relacionamento... Mesmo sendo mantido o sufocamento pelo espartilho, Like a Virgin/Love Spent torna-se sem dúvida o exorcismo do terceiro demônio: as mágoas de um amor mal resolvido. Tanto que ao final da canção, a cantora sai catando o dinheiro que estava jogado pelo chão para entregá-lo, de forma raivosa, à sua antiga paixão (nota: este dinheiro surgiu somente com a inclusão, e cabe muito bem no novo contexto).



Passados tantos exorcismos, é chegado o 4º e último bloco da tour, não à toa chamado de "Redenção". E ele é iniciado com o último vídeo de intervalo do show, o qual foi motivo de buzz na internet quando vazou em alta qualidade no youtube: Nobody Knows Me. É de praxe que em turnês de Madonna um dos intervalos tenha um tom mais político e de intensa crítica social, e nessa não foi diferente; para tal música, a cantora aparece primeiro de rosto limpo, e à medida que o vídeo transcorre, nele são incluídos recortes de outros rostos, símbolos diversos e imagens de conflitos e desastres espalhados pelo mundo. Foi inclusive desta gravação que surgiu a polêmica com a política francesa de extrema direita Marine Le Pen, uma vez que o rosto de Marine é colado no de Madonna, e pouco depois uma suástica (reconhecido símbolo nazista) aparecia em sua testa. Em suma, Nobody Knows Me é rica de significados, e abre caminho para I'm Addicted, a pulsante canção que retoma os trabalhos.

Interpretando algo como Joana D'Arc, Madonna traz na coreografia de I'm Addicted referências a artes marciais, num momento visualmente futurista e tematicamente ligado a elementos orientais. É a partir destes elementos inclusive que se segue a canção I'm A Sinner, reciclando a temática religiosa, mas num tocante mais espiritualista e lisérgico. Além dos três ônibus que se formam com os cubos de LED no palco, e que parecem estar em movimento quando contrastados às paisagens indianas apresentadas no background, há também de se notar que os gárgulas surgidos no início do espetáculo, antes de Girl Gone Wild, agora são monges hindus fazendo malabarismos corporais de Yoga. Ao final, surge um trecho de Cyberraga, música em sânscrito gravada para o disco Music e cantada aqui junto ao trio Kalakan. É este o momento em que a redenção toma forma de verdade, e como que vindo de um transe espiritual causado pelos cânticos, floresce o ápice da apresentação: Like A Prayer.

Numa versão semelhante à original, Like a Prayer é anunciada pelos sinos que abrem o concerto, e tem como novidade a presença concreta de um coral no palco (formado pelos dançarinos e algumas das pessoas envolvidas no backstage). Madonna se entrega por completo na performance, indo de lá para cá e interagindo bastante com o público; é possível até ouvir nas gravações amadoras da tour a voz de fãs cantando em seu microfone! Próximo do final, ela se aproxima da frente da plataforma, e entoa os versos que finalmente concretizam o show: "Life is a mistery, everyone must stand alone, I hear you call my name, and it feels like HOME".



Há espaço ainda para um encore: uma performance quase acrobática de Celebration. Ela deve simbolizar o estado de graça que advém da libertação, e recentemente tem sido apresentada junto a Give It 2 Me, mudança essa que deve vir ao Brasil.

A MDNA Tour é mais um grande espetáculo no qual tudo o que Madonna sabe de melhor é apresentado perante os olhos do público. Há dança, mistério, há doçura, lamento e ainda um pouco de terror. O interessante é perceber como esses elementos transcorrem naturalmente e nos levam, durante as duas horas de espetáculo, a viajar com a cantora de um estado de espírito a outro. Do escuro à luz. Da dor à cicatriz. E como a própria Madonna disse a Luciano Huck em entrevista recente, entregar-se aos shows foi sua maneira de se libertar de questões pessoais que ainda a machucavam - certamente, viajar com ela pode nos proporcionar o mesmo sentimento.


sábado, 17 de novembro de 2012

"Lírio em sua Alma"

Decidi vasculhar um pouco no meu arquivo de textos desses últimos 6 anos, e achei um que ao ler, lembrei de como amava. Foi escrito ao som da música postada logo abaixo, uma das minhas prediletas da sempre bem vinda Kate Bush.

“Lírio em sua alma”

Estava andando
Pelas paredes de
Meu quarto,
E observava
Os quadros
Nos quais pisava

Suas molduras
Não conseguiam
Limitar
O que neles
Eu via
Mas quebrava
Todas elas,
Por um intuito
Estúpido e
Real,
Tal qual
Um instinto,
O mesmo que guia
Sua cega
Tecelã

Pois,
De todos meus
Movimentos,
Poucos deles
Não foram aprendidos
Por mim
E não me resta
A indulgência
De sobreviver...
Resta-me cólera!
Cólera por
SUPERVIVER

Andar além de meus pés
Escrever além de minhas mãos
Olhar além de mim

Além do que esteve guardado,
Aqui



"You crush the lily in my soul"