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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Hoje recebi uma carta...

Ok, não foi uma carta, foi uma mensagem virtual, mas acabou me soando como, contando uma história que precisava repassar. Pelo que entendi, é sobre um eu, um ele e uma ferida - talvez algumas, parece ser uma história que vai e volta, sem saída.
Reforço, este texto não foi meu, mas com permissão de quem escreveu, aqui está. Espero que vocês também possam gostar.


PARTE I

Pois não, não vim só reclamar, estou cheio de dúvidas, cheio de sentimentos. E você já me conhece faz um tempinho. Nosso primeiro contato foi lá pelos idos de 2007, e você permanece, é o único que permanece. Aliás, não tenho as preciosas lembranças de antes do seu surgimento. Melodramas a parte, não sei o que vim fazer aqui hoje. São tantas coisas ressoando que minha cabeça parece um ovo de cobre atacado por badalos.
Foi o retorno dele, obviamente o retorno de tão mal quisto elemento nunca trouxe boas vibrações. Se algum dia eu tiver mesmo parado de escutar o timbre agudo saindo do colchão e das paredes. Mas assim, direto, dentro da minha retina, dentro da minha casa ele não tinha voltado. Com ou sem histórias e revelaçoes fracas. Não é só o ódio que eu transmiti para a sua cara, mas é tudo sobre ele. Ele se reverte, e eu nao gosto disso. Porque eu sei os muros isolantes que eu construí com essa raiva, eu conheço cada rachadura que ainda deixa passar um ruído da sua existência. Mas um buraco assim, dessas proporções? Foi grande. Como numa acústica côncava tudo se misturou então eu odeio ele ou o outro? Vamos além, qual dos três marcou mais o travesseiro?
Sim, me jogo no meio, me lanço de ponta. Quantas vezes eu gozei para ele? Quantas vezes eu joguei copos na parede por ele? QUEM é ele? E para onde vai a raiva? Para quem? Quando até o gozo se misturou. O cheiro da porra não tem mais dono, quando se choca no frio do espelho, a porra é o ódio, a raiva é o suor. As lágrimas são a inveja.

PARTE II

Porque sim, o mais torpe dos sentires está dentro do reflexo dele. Agora que eu entrei nos seus olhos claros e arranquei uma parte deles. Agora que os vasos sanguíneos que derramam em nossas escleras dilatam a mesma ardência... eu ainda invejo ele. A capacidade de se mover, não como se eu fosse um paralítico, mas um paralisado. Eu espero, eu me escondo, francamente: eu tenho medo de ser eu. Assim está tudo aceito, trato feito. E eu sei, agora eu sei que por trás da retina dele existem brocas, existe a miopia que ele consegue esconder de todos. Quando eu olhei nos olhos dele eu vi os meus, todos despedaçados em via pública. Mas os pedaços que faltavam eram os mesmos, os que ele conseguia guardar debaixo da alma. E agora, tenho pena? Ele é torpe, ele é a personificação do mau-caratismo, ele é tudo o que eu me programei para sentir ojeriza. Mas ele consegue. Ele consegue as pessoas, tem tudo nas mãos. Eu sou torpe, por natureza eu não valho mais do que uma catarata removida e conservada em éter. Mas ele... ah... ele sabe catar cada caco que estilhaça de suas janelas, ele compartilha sua loucura com a sanidade abalada que foi-lhe dada de presente. Ele saiu. O casulo se abriu, e não foi pela força da natureza, foi pela força, simples força, de ser mais, muito mais, custando o que custasse, arranhando direto nos olhos alheios.Ele se moveu. Eu estou inerte. E a inércia não é a morte, é viver dentro do casulo, esperando me abrir a qualquer momento. Sem fazer força. Porque a força machuca, e não machuca a mim, machuca aos outros, outros que eu quero preservar. Eu invejo a podridão de não se importar, de seguir buscando novas formas mutante-evolutivas, não importa quantos cegarão diante do egoísmo demandado.

PARTE III

A terceira raiva, a que eu sei estar certa e ignoro, me conforto e me resvalo no calor de manter viva a única das mentiras na qual eu acredito, e a única que me dá a certeza de estar próxima ao fim. Eu só estou cansado, mas pensar no início do fim, no peso de cravar uma estaca em brasa nos olhos dele... eu não sei. Minhas retinas estão a ponto de cicatrizar, mas o timbre que sai do colchão, das paredes, dos cantos nas ruas, da luz se acendendo e desvelando um bejo em segredo. O timbre. É de rachar minha racionalidade.

XXX

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