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sábado, 20 de outubro de 2012

Erotica: 20 anos do erotismo amoroso de Madonna

Nota: cada música citada tem em seu nome o link para ouvi-la.




É bem verdade que Madonna ainda hoje é vista como uma vagabunda, por muita gente. E a raiz dessa visão tão reduzida dela remonta aos primeiros 10 anos de sua carreira, que culminaram com seu trabalho mais polêmico e, consequentemente, mais mal interpretado pelo público em geral: Erotica, lançado em 1992 e completando 20 anos de “nascimento” hoje, dia 20 de outubro de 2012. O grande “problema” na forma como o Erotica foi divulgado residiu na tríade do qual ele fez parte, junto com o filme “Corpo em Evidência” e com o Livro “Sex”; bem dizer, foram as imagens, capazes de surpreender até pessoas que tem boa relação com sua sexualidade, que causaram um buzz negativo sobre a imagem da própria Madonna. Como na carreira dela e de artistas pop em geral a imagem conta muito, o álbum foi completamente subestimado e rotulado pelo público como “sexual demais” e até “vulgar”, o que maculou a cantora para as grandes audiências... Uma pena.

Erotica nos é apresentado por um alterego de Madonna, Dita Parllo, uma dominatrix com roupas de couro, máscaras e acessórios sadomasô a tiracolo (veja o clipe de Erotica). Com uma voz sussurrada e falando sobre coisas como “I’d like to put you in a trance” ou “I don’t think you know what pain is”, Dita nos conduz a um universo no qual o prazer se confunde com a dor, e sobre o qual ela se debruçaria para nos mostrar até onde poderíamos chegar quando o assunto é sexo. Seguida por uma versão dançante e abusada para a canção Fever, o começo do disco denota que a ideia é: transe, transe e transe um pouco mais. Não que isso seja ruim, mas a questão é que os caminhos traçados pelo Erotica vão confundindo esse apetite voraz com uma diversidade de sentimentos e emoções que se relacionam à sexualidade humana, mas não somente ao ato sexual em si. Dessa forma, a longa jornada que este disco representa (é o mais longo da carreira de Madonna, ela mesma disse ser um disco duplo), nos faz visitar decepções amorosas, relações de poder e “defecação sentimental”, fobias sociais e AIDS, bem como o desejo quase pueril de se viver o AMOR, tanto na espera por quem se ama como no lamento por quem se foi.

Dessa maneira, a cantora explora nuances e desafia tabus que, diga-se de passagem, ainda assombram nossa sociedade, e até nós mesmos. Madonna fala de forma bem humorada sobre o sexo oral (algo que muita gente ainda acha “pecaminoso”) em Where Life Begins, e nos apresenta a uma pessoa que não consegue se entregar por completo a um relacionamento por causa dos “ensinamentos” (possivelmente religiosos) que recebeu de seu pai (Deeper and Deeper); discute a condição depreciativa de uma mulher que se esconde em si mesma e acaba se entregando a certos vícios para compensar sua dor existencial (Bad Girl), bem como relacionamentos doentios em que o parceiro não demonstra muita consideração por ela, deixando-a esperando por uma resposta que não virá (Waiting e Bye Bye Baby). Há espaço ainda para tratar sobre exclusão social e AIDS, temas que até hoje são vivenciados por certos grupos sociais, a exemplo dos LGBT (Why's It So Hard e In This Life). Chega a ser surreal imaginar Madonna perguntando em 1992, “why’s it so hard to love one another?”, e 20 anos depois questões simples como essas ainda fazerem total sentido para nossa planeta... Surreal e triste.

Se só por isso “Erotica” já se torna um disco essencial, imagine se dissesse que o zênite criativo não está exatamente nessas canções? É quando a cantora se despe da armadura de dominatrix e de sua fanfarra sexual, assumindo o desejo ardente de amar e ser amada, que o álbum floresce e mostra a beleza e melancolia tão próprias de Madonna. Em Rain, canção dedicada à sua mãe, mas que se encaixa perfeitamente para um casal do qual uma das partes precisou partir, ela canta sobre o sentimento de perda e a esperança ardente pelo retorno. São versos formosos, cheio de doçura e que só se tornam ainda mais bonitos com o clipe da canção, uma obra prima (assista).

"Waiting is the hardest thing
(It's strange, I feel like I've known you before)
I tell myself if I believe in you
(And I want to understand you more and more)
In the dream of you with all my heart and all my soul
(When I'm with you)
That by sheer force of will
(I feel like a magical child)
I will raise you from the ground
(Everything strange)
And without a sound you'll appear
(Everything wild)
And surrender to me

To love"

Se não bastasse a beleza de Rain, Madonna guardou para o encerramento do álbum uma das melhores canções de sua carreira: a balada jazz Secret Garden. Relatando os sentimentos e reflexões de uma alma torturada, uma flor pisoteada, a personagem demonstra que ainda não endureceu e sim, continua acreditando que pode encontrar quem a ame de verdade. E assim, canta:

“I still believe, I still believe
'Cause after all is said and done
I'm still alive
And the boots have come and trampled on me
And I'm still alive
'Cause the sun has kissed me, and caressed me
And I'm strong, and there's a chance
That I will grow, this I know
So I'm still looking for
A petal that isn't torn
A heart that will not harden
A place that I can be born
In my secret garden

A rose without a thorn
A lover without scorn”

“Uma rosa sem espinhos... Quem me ame sem desdém”. Lindo.

Tudo o que falei aqui é a ponta do iceberg dos temas que o disco aborda. E se fosse lhes indicar um bom álbum para entender e se surpreender com Madonna, não tenho muito o que falar, é este. Pois nele há sexo, há revolta, há coragem, fragilidade e amor; Em Erotica, há um pouco de tudo o que almejamos na vida, tornando-o simplesmente indispensável. E deixo com vocês versos que, certamente, vão bater na sua porta um dia:

“Only the one that hurts you can make you feel better
Only the one that inflicts the pain can take it away...

Erotic -a”



sábado, 13 de outubro de 2012

Soneto do mal estar estomacal

Essas coisas que lhe afligem quando sua janta não desceu muito bem...

Soneto do mal estar estomacal

Eu sou barriga vazia
Com coisas a vomitar
E vou expurgar o vazio
Até eu me eviscerar

Um tanto agonizante
A ânsia por expelir
Apago, mas num instante
Eu volto a me implodir

E temo que dedos singelos
Escapem do que espero
Desejo que saia daqui

Se com meus dedos singelos,
Já não consigo o que quero...
Ao vômito explodir