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quarta-feira, 18 de março de 2015

A ferida viva de Björk



Nota: algumas das ideias desse texto, envolvendo especialmente Mouth Mantra, vieram de conversas com Madyana Torres. Obrigado!

Vulnicura é uma adaptação vinda do latim, e significa algo como "A cura da ferida". Björk tem o hábito de sempre escolher uma única palavra para os títulos de seu disco, e mais uma vez acertou em cheio. Ao retratar num formato quase antropológico (como a própria se referiu ao trabalho) as fases pelas quais passou até superar o fim de seu casamento, a islandesa nos convida a explorar o antes, o durante e o depois de uma tragédia emocional, fazendo disso um estudo que universaliza sua experiência.
As primeiras seis músicas do álbum formam um ciclo cronológico, retratando sem muitas firulas quais as emoções e dúvidas que surgiam na cabeça daquela mulher, durante todo o processo. As três canções que abrem o disco a mostram numa dança inconstante com a esperança, a desilusão, e a negação de que as coisas caminhavam para seu fim. As três seguintes por sua vez marcam o drama vivido pós-rompimento, e nelas a tristeza e mágoa profundas vão aos poucos dando lugar a preocupações de outra ordem, bem como a uma tomada consciente de conceitos como salvação e morte. Seguindo o caminho da cantora, vamos num passo-a-passo, de Stonemilker a Notget.

Stonemilker - nesse primeiro momento, nos deparamos com uma mulher em dúvida, mas mantendo fé em seu relacionamento. Ainda que admita que "momentos de clareza estejam bem raros", Björk expressa que tem necessidades emocionais e demanda respeito de seu companheiro, numa batalha que, aparentemente, está travando sozinha. Ela chega a afirmar que fazê-lo falar o que sente é como tirar leite de pedra; não obstante, ainda resta em seu coração o desejo de sincronizar os sentimentos do casal. Acompanhados de cordas delicadas e cheias de acalento, os versos são entregues num tom frágil, mas vivo, como uma chama relutante em se apagar.

Lionsong - assumindo um tom quase cético, Björk canta sobre não saber o que esperar de seu então companheiro; naquele momento, porém, isso já não a incomodava tanto. Ao compará-lo com um leão raivoso e teimoso, ela se diz cansada de ter de lidar com ele, convocando então um veterinário/veterano do Vietnã para tentar acalmá-lo. Uma das passagens mais interessantes da música e quando a mulher diz que no começo tudo era simples, até chegarem a um ápice e dele as coisas terem debandado por uma complexidade bastante incômoda. O que ela ainda exige é transparência; dessa vez, no entanto, assume que a relação lhe tomava mais do que lhe dava fé.

History of Touches - é comum que na iminência de algo acabar, nos apeguemos aos mínimos detalhes e artefatos que restaram daquele momento. E ao acordar seu companheiro no meio da noite, "para expressar seu amor por ele, apertando sua pele para senti-lo", Björk respira os últimos sopros de esperança que ainda lhe restavam pelo amor deles. Talvez tentando resgatar os motivos pelos quais permaneceram juntos até ali, ela imagina um grande arquivo no qual ficariam guardadas todas as memórias sensitivas que envolviam os dois. Este arquivo é batizado de "Historia dos Toques", representando uma retrospectiva daquilo que chegava ao fim.

Black Lake - depois de tanta dúvida, resta agora somente uma certeza cruel: acabou. Num momento de dor imensa, Björk compara seu coração a um enorme lago preto, um charco sentimental, no qual ela afunda sem salvação. A mulher reduzida a uma ferida tenta encontrar algum sentido para todo sofrimento, e ao fazer isso começa a acusar o ex-companheiro por seu egoísmo e suas "obsessões apocalípticas", bem como a si mesma, ao questionar se o havia amado demais a ponto de toda devoção tê-la partido ao meio. Ainda, o sentencia por ter partido o laço familiar (aspecto que se mostra fundamental nas próximas músicas) para finalmente se comparar a um foguete adentrando a atmosfera, num esforço que queima cada uma de suas camadas. Como um ser que vivia acima da terra, vagando pelo universo enquanto suas emoções a amparavam, era hora de voltar ao chão e pagar o preço por sua ilusão de imortalidade. E ao se descobrir mortal, a voz silencia e a música nos leva a um cortejo fúnebre, de cordas paradoxalmente contidas e espaçosas, como num lamento baixo.

Family - confrontada com a morte de sua família, Björk sente necessidade de prestar condolências a seu "triângulo miraculoso" de mãe, pai e filha. É quando percebe que sua dor não deve fazê-la esquecer da criança, que também sofre e pode acabar escorregando no mesmo lago preto que a arrastou. Pensando nisso, mostra-se preocupada em construir uma ponte para que sua filha não caia, expressando que o perigo é real e precisa ser combatido urgentemente. Após um momento intenso de cordas quase desordenadas, a mulher parece encontrar uma razão pela qual acalmar seu coração, e nela se apega até, pela primeira vez, sentir uma harmonia em seu tormento. Há um "enxame de som sobre suas cabeças", e ele tem de ser alcançado para curar todo ressentimento restante; só assim ela e sua família emocionalmente morta poderão adentrar no que chama de "universo de soluções". De joelhos, a cantora termina a canção exclamando mais de uma vez: "God, save us all".

Notget - levada por uma percussão forte e dominante, Björk canta com mais segurança e finalmente encontra a clareza que tanta buscara. Não que essa clareza a salve do sofrimento, mas pelo menos agora parece olhar para o fim do amor com uma tenacidade antes perdida. Chega a expressar que sua dor não deve ser removida, uma vez que ela representa sua chance de cura, e até reconhece que seu ex-companheiro também sofre, ainda que a busca por consolo de ambos seja bem diferente. Mais importante, a mulher diz finalmente entender o medo de morrer que aquele homem sentia, e a partir de agora ambos precisavam ser fortes para, em última instância, proteger sua filha da morte. Em entrevista concedida no fim de janeiro, a artista expressou que Notget representa sua voz interior rebatendo toda a mazela que carregava; não é um momento de cura, mas sim o grito que precisava arrancar do peito para sobreviver, seguir adiante.

As últimas três canções do Vulnicura não tem marcação cronológica como as anteriores, mas se situam claramente depois do tormento da artista. São nelas que Björk volta a suas metáforas sinuosas e de teor universal, como provável resultado de sua recuperação sentimental. A primeira delas, Atom Dance, reflete sobre a ideia de que "ninguém é um amante solitário", sob a luz de que somos trilhões de átomos, vibrando entre si e em consonância com o universo. Ao filosofar que "a maioria dos corações temem suas próprias casas, quando elas voltam a si mesmas por completo", a cantora expressa o nosso latente temor em buscar autoconhecimento e aceitação íntima, o qual normalmente se reflete numa árdua busca de si nos outros. A proposta da islandesa aqui é simples: sinta o fluxo como o amor primeiro, deixe a dor vir e dance com ela; "somos os hemisférios, uns dos outros", e no fim das contas os átomos estão somente gargalhando. Björk afirmou ser essa música sobre a virtude do amor.
Em Mouth Mantra, a cantora parece discutir algo que feriu sua essência há três anos atrás: um sério problema nas pregas vocais, que a deixou meses sem poder cantar. Nesta canção, ela afirma ter sentido como se sua boca estivesse costurada, com a garganta entalada, de modo a deixá-la afastada daquilo que melhor sabe fazer. Foi num voto de silêncio que ela diz ter explorado o "espaço negativo em torno de sua boca", permitindo assim que não saísse ferida desse buraco negro; finalmente, afirma ter seguido um caminho que exigia sacrifícios, e era hora de sacrificar sua cicatriz. "Você pode cortá-la?", indaga no último verso. É inevitável associar a recuperação pós-rompimento com a de sua voz, de modo que ambas as experiências propiciaram a ela novas ideias, expressões, ou como a mesma descreve, "milhares de sons". Somos então levados ao momento em que Björk finalmente lança luz sobre suas indagações, ao cantar: "when I'm broken I am whole, and when I'm whole I'm broken".
Quicksand é um momento extático no qual a artista reconhece mais uma vez sua natureza, no aspecto mais maternal da Terra. Ao afirmar que sobre o abismo será criado um ninho celestial, ou que sobre o lago preto haverá uma nuvem protetora surgida de seu vapor, expressa o sentimento de que a Grande Mãe sempre encontra maneiras de nos salvar, e que se sua filosofia é capaz de inundá-la e consumi-la como areia movediça, ela está disposta a afundar com ela. Björk demonstra reencontrar sentido de existência ao pensar na continuidade da espécie humana, e numa escala micro, na continuidade de sua própria linhagem, uma vez que nao podia desistir de sua filha, e da filha de sua filha... Enfim, de todas as filhas que vem de Gaia. A música assume um teor feminista, e conclui o Vulnicura com a expressão plena de sororidade (e humanidade) de que juntas quando estamos partidas, formamos uma completude maior. E vice-versa.

Na busca incessante por curar sua ferida, a mulher antes abatida pela guerra parece concluir sua jornada sabendo que ela não termina. E essa talvez seja a mensagem maior do Vulnicura: a jornada jamais termina.


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